À ATRIZ DRICKA SANTOS
Era um dos teatros alternativos do bairro do Bixiga, na capital paulista. Um pequeno espaço com capacidade para noventa pessoas. Ficávamos espiando pelas cortinas, um pouco antes do espetáculo começar, para ver se o número de espectadores era maior que o elenco. Éramos trinta e cinco atores no palco, muitas vezes para uma plateia formada por cinco, dez pessoas.
A renda da portaria, inúmeras vezes, não dava nem para todos pegarem o metrô de volta para casa. Dividíamos o pouco que havia com aqueles que moravam nos bairros mais distantes e periféricos. E, quando tínhamos essa sorte, ao menos conseguíamos o direito de voltar para casa, jantar, tomar um banho e dormir um pouco, antes de pegar o ônibus às quatro da manhã para ir trabalhar.
Ensaiamos quase um ano — alguns meses de oficinas, outros tantos de ensaios pesados, muitas vezes de madrugada. Por não termos dinheiro para voltar, dormíamos frequentemente no teatro.
Lembro-me bem do dia em que aquela menininha chegou, acompanhada de outros cinco adolescentes e um jovem um pouco mais velho, perguntando se havia vagas nas nossas oficinas. A ideia não era apenas participar das aulas, mas integrar o elenco do nosso espetáculo “Um Sanatório para Freud”. Um dos jovens, possivelmente o mais velho, dirigia um grupo na cidade de Ferraz de Vasconcelos e as havia convidado para tentar uma vaga na nossa companhia.
Dricka era uma menina. Tinha apenas dezesseis anos. Carregava nos olhos milhões de sonhos — um deles era ser atriz. Tornou-se. E hoje, depois de quase trinta anos, transformou sua vida numa jornada linda de inclusão social e cidadania plena.
Desde aquele tempo, Dricka jamais se separou da palavra solidariedade — ora através do teatro, ora pelo exercício de seus outros ofícios: Assistente Social e Advogada. Profissões que acolheu para alicerçar ainda mais sua jornada humana, espiritual e artística.
Nos tribunais e nas batalhas incansáveis por justiça e dignidade — seja por aqueles invisibilizados nas prisões ou por pessoas em situação de rua — ela é chamada de Dra. Adriana Santos. No palco, a chamamos carinhosamente de Dricka, Dricka Santos, nossa Drickinha.
Nestes trinta anos de existência, o Teatro da Solidão Solidária apresentou dezenas de espetáculos, ministrou centenas de oficinas e percorreu o mundo. América Latina, Europa e Estados Unidos tornaram-se nosso habitat. E se hoje temos reconhecimento como uma das grandes redes de arte e inclusão social do mundo, é também graças a depoimentos e apoios de parceiros como Paulo Betti, Serginho Groisman, Ingrid Guimarães, Luiz Carlos Vasconcelos, Rosi Campos, Tadeu di Pietro, Ivaldo Bertazzo, Zeca Baleiro, Paulinho Boca de Cantor (Novos Baianos), e tantos outros — como Héctor Babenco (in memoriam) e Sérgio Mamberti (in memoriam), além de nomes da nova geração como Lucy Alves.
Devemos tudo isso a todos que se tornaram parceiros ao longo da nossa história — especialmente àqueles que a começaram conosco.
Começar nunca é fácil. Continuar é ainda menos confortável. Num país em que a cultura, em certos momentos da história, foi tratada como coisa de marginais e vagabundos, resistir é tarefa para os valentes, os gigantes.
Dricka Santos, você é uma dessas baluartes. Você não desistiu da gente. Não desistiu de si mesma.
A você, e a todos aqueles que permaneceram firmes na caminhada — e também àqueles que precisaram saltar em alguma estação do trem da história — nossa eterna gratidão.
Revendo nosso acervo, encontrei cartazes, fotos e matérias de jornais de trinta anos atrás — e de hoje. Você está em ambos. Isso diz tudo.
Vida longa à sua carreira artística e à sua fé na justiça plena, onde todos tenham direito ao pão, ao circo e à felicidade.
Que venham mais trinta anos! E que, para nossa sorte, você continue a brilhar nos nossos palcos — e nas nossas vidas.
Te amamos!
Há braços!
Ivan Antonio
Diretor e criador do Teatro da Solidão Solidária















