Entre o amor e a exclusão – O vôo das Borboletas
Espetáculo “O voo das borboletas” está em temporada em Fortaleza no mês de outubro
ROBERTA SOUSA
Três mulheres, um estirado sobre o chão e um carro em cena. O que vemos é o espetáculo “O voo das borboletas”, com direção de Maria Thaís e texto de Ivan Antônio. A montagem está em cartaz em Fortaleza no mês de outubro, com sessões no Teatro José de Alencar, no Sesc Iracema e na Sala de Teatro Nadir Papi Saboya, no Porto Iracema das Artes.
O texto, escrito na década de 90 pelo pernambucano Ivan Antônio, nasceu do convívio dele com ex-presidiárias em São Paulo. A pesquisa de Ivan tem como objetivo entender a solidão de homens, mulheres e crianças em situação de extrema exclusão social. A partir da observação e escuta dessas pessoas, ele reuniu histórias reais, ressignificadas por meio da ficção.
“A peça fala sobre medo e solidão, sobre mulheres que perderam o sentido da vida e encontraram um modo de viver através da escuta e da convivência. Elas tentam se “disciplinar” e ter menos medo da solidão, ao mesmo tempo em que buscam construir desejo a partir de uma ética do cuidado. Não se trata de uma dramaturgia que gere identificação direta com o público”, conta Maria Thaís, diretora da montagem e idealizadora do projeto Teatro e Solidão Solidária. “Nosso trabalho tem como pressuposto que os processos artísticos, ao se abrirem ao outro e ao diferente, criam movimentos ético-estéticos que nos transformam”, conta a encenadora.
Método
A pesquisa de Ivan tem como objetivo entender a solidão de homens, mulheres e crianças em situação de extrema exclusão social. A partir da observação e escuta dessas pessoas, ele reuniu histórias reais, ressignificadas por meio da ficção. A peça integra o projeto “Teatro e Solidão Solidária”, com realização da Mundana Companhia e da Casa da Outra, com apoio do Porto Iracema das Artes. “O Voo das Borboletas” faz parte de uma trilogia que inclui também os espetáculos “No Meio do Mundo” e “Tragédia”, ambos de Ivan Antônio. “Trata-se de um material dramatúrgico raro, que foi, inclusive, tema de uma tese de doutorado de Viviane Dias sobre teatro e solidão”, explica Maria Thaís.
A diretora conta que a peça nasceu com o desejo de construir uma percepção de mundo a partir de corpos e pensamentos desviantes, errantes, transviados, desorientados.
“São corpos poéticos, performáticos, que nos convidam a uma escuta sensível, à imaginação, ao sonho, à fabulação como forma de resistência. Lidamos com o sensível como um campo político que nos coloca em suspensão, num estado de processo”, destaca.
Fortaleza
O trabalho laboratorial realizado com o grupo, em Fortaleza, passou por diferentes fases, envolvendo oficinas de sensibilização e entrevistas com mulheres da linha do cuidado. “Esta fase tem sido muito potente. Não se trata de “ensinar teatro”, mas de nos abrirmos a uma escuta radical das mulheres e da cidade. Não viemos com o projeto pronto, mas com um desejo de mobilizar um território, de nos deixar afetar pelo que emerge em nosso contato, com a cidade, com as pessoas”, diz Maria Thaís.
Além do espetáculo, as ações do projeto envolvem encontros com artistas, pensadores, lideranças comunitárias e trabalhadores do cuidado em diferentes estados do Brasil, como São Paulo, Bahia e Pernambuco. E, neste mês, como Estados Unidos (via Pressa).
Ao desembarcar na capital cearense, o grupo encontrou um vasto repertório de experiências que envolvem o cuidado e a escuta. “A cidade tem uma história e um imaginário muito fortes em relação à saúde mental e às instituições de cuidado. Encontramos aqui um campo de práticas e pensamentos que dialogam profundamente com os temas do nosso projeto”, diz Maria Thaís.
As apresentações acontecem de forma gratuita e estão previstas para os dias 12 e 13 de outubro, no Teatro José de Alencar; 18, 19 e 20, no Sesc Iracema; e 25, 26 e 27 de outubro, na Sala de Teatro Nadir Papi Saboya, no Porto Iracema das Artes. Todas com início às 19h.
A peça é encenada por um trio de atrizes que se reveza entre as personagens. “Elas compartilham as falas e os gestos, como se fossem um só corpo. Um corpo que se fragmenta, que dança, que cai, que se arrasta, que voa. Um corpo que tenta viver apesar de tudo”, define a encenadora.
“O Voo das Borboletas” é uma peça sensorial e poética, que nos convida a uma escuta atenta e amorosa do outro. “Ela não busca o entretenimento fácil, mas o enfrentamento ético de questões urgentes. É um espetáculo necessário, que nos provoca a pensar sobre o sentido da vida, sobre o lugar da arte e do teatro em um mundo em colapso”, finaliza.













